Golpes com dados pessoais atingem 45 milhões de brasileiros e acendem alerta sobre uso da IA
Nova pesquisa do Cetic.br mostra avanço das fraudes digitais e revela como inteligência artificial amplia os desafios de privacidade e segurança online.
O crescimento da inteligência artificial trouxe novas possibilidades para trabalho, educação, atendimento e produtividade, mas também elevou a preocupação com a segurança dos dados pessoais. Uma pesquisa divulgada pelo Cetic.br em 31 de agosto mostra a dimensão desse problema: 32% dos usuários de internet com 16 anos ou mais no Brasil, equivalentes a cerca de 45 milhões de pessoas, relataram ter enfrentado tentativas de golpes envolvendo seus dados pessoais. Além disso, 20% disseram ter sido vítimas desse tipo de crime.
O levantamento chega em um momento no qual ferramentas de IA generativa já fazem parte da rotina de consumidores, profissionais e empresas. Quanto maior a quantidade de informações compartilhadas no ambiente digital, maior também pode ser a capacidade de criminosos criarem abordagens personalizadas e convincentes. O cenário ajuda a explicar por que privacidade, autenticação e educação digital deixaram de ser assuntos restritos a especialistas e passaram a fazer parte da segurança cotidiana de qualquer pessoa conectada.
Por que os golpes com dados pessoais estão ficando mais convincentes
Os aplicativos de mensagens aparecem como o principal canal associado às tentativas de golpes com dados pessoais, citados por 84% dos usuários que passaram por esse tipo de situação, segundo o Cetic.br. As chamadas telefônicas vêm logo depois, com 79%, enquanto sites ou aplicativos falsos aparecem em 71% dos relatos e SMS também alcançam 71%. E-mails e redes sociais completam o cenário, mostrando que o problema não está concentrado em uma única plataforma.
Na prática, o uso de informações como nome, telefone e outros dados pessoais pode tornar uma abordagem fraudulenta muito mais convincente. Uma mensagem que menciona uma informação verdadeira sobre o consumidor tende a parecer mais legítima do que um contato completamente genérico, especialmente quando utiliza linguagem de urgência ou tenta reproduzir a comunicação de uma empresa conhecida. A evolução da inteligência artificial adiciona outra camada a esse problema, porque ferramentas generativas podem facilitar a produção de textos, imagens, vozes e outros conteúdos sintéticos capazes de imitar comunicações reais.
O avanço tecnológico, portanto, não significa apenas que criminosos possuem ferramentas mais sofisticadas, mas também que empresas precisam elevar o nível de proteção oferecido aos clientes. A própria Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) vem tratando inteligência artificial e tecnologias emergentes como temas prioritários para a fiscalização entre 2026 e 2027. Entre as prioridades estão direitos dos titulares, proteção de crianças e adolescentes, tratamento de dados pelo poder público e uso de IA no tratamento de informações pessoais.
O uso da inteligência artificial cria uma nova fronteira para a privacidade
A preocupação aumenta porque os próprios usuários estão utilizando IA generativa para tarefas cada vez mais variadas. A pesquisa do Cetic.br traz dados sobre esse comportamento e mostra que informações pessoais podem entrar nas interações com sistemas de inteligência artificial, criando um novo desafio para a privacidade. O problema não está necessariamente em utilizar essas ferramentas, mas em compartilhar dados sem avaliar se aquela informação realmente precisa ser enviada para um serviço digital.
Para empresas, essa mudança é especialmente importante. Funcionários podem utilizar ferramentas de IA para resumir documentos, elaborar textos, analisar informações ou automatizar tarefas, mas o envio inadvertido de dados pessoais, contratos, informações financeiras ou documentos internos pode criar riscos de segurança e conformidade. A ANPD destaca justamente desafios relacionados ao uso de dados pessoais para finalidades diferentes das originalmente planejadas, além de questões como transparência e decisões automatizadas.
O Brasil também começa a testar formas mais específicas de acompanhar esses riscos. Em agosto, a ANPD publicou a metodologia de testagem de seu Sandbox Regulatório em Inteligência Artificial e Proteção de Dados, desenvolvido com participação da Universidade de São Paulo. O projeto utiliza um ambiente controlado para acompanhar soluções de IA, avaliar riscos, produzir evidências e identificar oportunidades de aprimoramento regulatório.
Essa movimentação mostra uma mudança importante: segurança digital não será tratada apenas como uma questão de senha ou antivírus. A tendência é que empresas precisem combinar proteção de dados, governança de inteligência artificial, controle de acesso, treinamento de funcionários e avaliação de riscos. Para consumidores, isso significa que entender quais informações são compartilhadas e com quem elas são compartilhadas passa a ser tão importante quanto manter o celular atualizado.
O que muda para consumidores e empresas daqui para frente
Para o usuário comum, o principal impacto é a necessidade de aumentar a atenção diante de mensagens, ligações e páginas que utilizam informações pessoais para parecer legítimas. A presença de um nome correto, uma empresa conhecida ou algum dado verdadeiro não deve ser considerada prova suficiente de autenticidade. Em um ambiente no qual a IA consegue produzir comunicações cada vez mais naturais, confirmar informações diretamente nos canais oficiais se torna uma etapa importante antes de tomar decisões.
As empresas também devem se preparar para um cenário no qual ataques digitais poderão combinar engenharia social, automação e inteligência artificial. Isso significa revisar políticas internas sobre o uso de ferramentas generativas, limitar o acesso a informações sensíveis, adotar autenticação forte e criar processos claros para identificar comportamentos suspeitos. A transformação digital pode aumentar produtividade e reduzir custos, mas seus benefícios dependem de uma estrutura de segurança compatível com a quantidade e o valor dos dados processados.
A própria evolução regulatória aponta nessa direção. A ANPD já acompanha questões relacionadas a plataformas digitais, fraudes online, transparência e riscos associados a tecnologias emergentes, enquanto seu Sandbox de IA busca gerar conhecimento prático para orientar futuras decisões. O avanço da regulação tende a pressionar organizações a demonstrar não apenas que utilizam tecnologia, mas também que conseguem identificar e reduzir os riscos criados por ela.
Nos próximos meses, a combinação entre inteligência artificial e segurança digital deve ganhar ainda mais importância. Para consumidores, isso pode significar sistemas de autenticação mais resistentes a fraudes e novas ferramentas de proteção dentro de aplicativos e serviços. Para empresas, a oportunidade está em transformar segurança e privacidade em parte da própria estratégia de inovação, evitando que a adoção acelerada de IA crie vulnerabilidades difíceis de corrigir depois. O dado de 45 milhões de brasileiros expostos a tentativas de golpes deixa claro que a transformação digital já exige uma nova cultura de proteção de informações.
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