Centro de RNA da UFMG recebe R$ 60 milhões para desenvolver vacinas e terapias no Brasil
A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) passou a coordenar o primeiro Centro de Competência em Terapias e Vacinas com RNA do Brasil. Instalado no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC), o projeto terá investimento previsto de R$ 60 milhões ao longo de quatro anos, em uma parceria entre o Ministério da Saúde e a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).
Batizada de Centro de Competência em Terapias e Vacinas com RNA, a iniciativa é identificada pela sigla CTV-RNA e pretende aproximar universidades, instituições de pesquisa, empresas, startups e o Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta é ampliar a capacidade brasileira de desenvolver tecnologias estratégicas em saúde e diminuir a dependência de soluções produzidas no exterior.
A implementação foi oficializada em Belo Horizonte em 31 de agosto de 2026. O Ministério da Saúde divulgou a iniciativa em 2 de setembro, em página atualizada posteriormente, e a Embrapii publicou informações complementares no dia 3. Em 14 de setembro, o CTVacinas, unidade da UFMG ligada ao projeto, informou o início da integração do centro à Rede Embrapii.
O que é o Centro de Competência em RNA
O CTV-RNA foi estruturado para transformar conhecimento científico em soluções aplicáveis à saúde. A coordenação ficará sob responsabilidade da UFMG, por meio do CTVacinas, que já atua em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias relacionadas a vacinas e terapias. A localização no BH-TEC coloca o centro em um ambiente voltado à inovação e à conexão entre academia e setor produtivo.
O RNA pode ser utilizado para orientar o organismo a produzir proteínas ou outras substâncias relacionadas ao combate de doenças. A tecnologia ganhou visibilidade durante a pandemia de Covid-19, especialmente pelo uso em vacinas. Desde então, o domínio dessa plataforma passou a ser considerado relevante não apenas para responder a emergências sanitárias, mas também para criar tratamentos direcionados a diferentes enfermidades.
De acordo com o Ministério da Saúde, a estrutura terá atuação voltada ao desenvolvimento de produtos e à formação de uma rede nacional de pesquisa, inovação e produção. A integração entre diferentes setores busca encurtar o caminho entre a investigação realizada em laboratórios e a eventual aplicação de novas tecnologias no sistema público de saúde.
Vacina contra malária está entre os primeiros projetos
Entre as frentes iniciais está o desenvolvimento de uma vacina contra a malária causada pelo Plasmodium vivax, espécie predominante na Amazônia brasileira. A doença permanece como um desafio de saúde pública em áreas da região amazônica, o que dá ao projeto uma dimensão diretamente relacionada às necessidades epidemiológicas do país.
Também estão previstos estudos de vacinas terapêuticas contra o câncer e de tratamentos baseados em RNA para doenças como Chagas, leishmaniose e chikungunya. As pesquisas abrangem enfermidades infecciosas e condições que exigem estratégias terapêuticas específicas, com potencial de aplicação futura em diferentes regiões do Brasil.
O CTVacinas da UFMG informou que o centro iniciou sua operação em Minas Gerais com essas linhas de pesquisa. Isso, porém, não significa que as vacinas ou terapias estejam prontas para uso, liberadas pelas autoridades regulatórias ou incorporadas ao SUS. O desenvolvimento de produtos de saúde depende de etapas científicas, pré-clínicas, clínicas e regulatórias.
Como a iniciativa pode fortalecer o SUS
O investimento anunciado pretende fortalecer a autonomia tecnológica brasileira em uma área considerada estratégica. Ao desenvolver competências nacionais em RNA, o país pode ampliar sua capacidade de participar de diferentes etapas de criação, avaliação e produção de vacinas e terapias, reduzindo a necessidade de recorrer exclusivamente a tecnologias estrangeiras.
Para o SUS, a existência de uma rede articulada entre universidades, centros de pesquisa, empresas e startups pode favorecer a criação de soluções voltadas a problemas de saúde relevantes para a população brasileira. A conexão com o sistema público também ajuda a orientar as pesquisas para demandas concretas, embora qualquer futura incorporação dependa de evidências de segurança, eficácia, custo e das regras aplicáveis.
Segundo a Embrapii, o centro reúne uma dimensão científica, industrial e estratégica. A experiência da pandemia mostrou a importância de contar com infraestrutura e conhecimento capazes de responder rapidamente a novas ameaças. A estrutura em Belo Horizonte pretende contribuir para que o Brasil esteja mais preparado diante de futuras emergências sanitárias.
Tecnologia busca reduzir dependência externa
A coordenação da UFMG dá ao projeto uma abrangência que ultrapassa Minas Gerais. Embora o centro esteja instalado em Belo Horizonte, os resultados esperados se relacionam a desafios de saúde presentes em várias partes do país, como as doenças infecciosas associadas à Amazônia e outras enfermidades de impacto nacional.
O release da UFMG destaca o caráter nacional da iniciativa, enquanto o CTVacinas detalha a integração do primeiro centro brasileiro dedicado a terapias e vacinas com RNA à Rede Embrapii. A expectativa é que a cooperação ajude a consolidar competências permanentes em biotecnologia, sem limitar o projeto a uma única doença ou aplicação.
Com quatro anos de recursos previstos, o CTV-RNA entra agora em uma etapa de desenvolvimento e articulação institucional. A relevância da iniciativa será medida pelos avanços científicos, pela capacidade de transformar pesquisas em produtos e pela possibilidade de, no futuro, oferecer respostas nacionais a doenças que afetam o Brasil.










